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2014-07-21

Aniversário - Luiz Edmundo Alves


cada momento vivido
é um pedacinho que
se perde.
como sentir o tempo?
cada momento vivido
é um pedacinho que
se ganha.
como fixar o tempo?

as articulações
rígidas do tempo
rugas na face

as reinvenções
diminutas do tempo
infância na memória

Luiz Edmundo Alves nasceu em Vitória da Conquista, Bahia, em 21 de julho de 1959.

Do mesmo autor: Sombras; Poética

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2014-07-20

Flores do Verão - Gastão Cruz

Estás no meio das árvores dos
pássaros das
sombras no regresso da praia
as flores do verão também estampadas
na solidão da saia outras crescendo
naturais sendo umas o futuro e as da
natureza
o momento presente a estampa que
te envolve saindo
dos arbustos movidos pla leveza
imperceptível quase do espírito
ar
que virá um dia
transformar-te
como do rés da terra um vento baixo
subindo ao peitoril onde te inclinas
para as
flores do verão ainda

in 366 Poemas que Falam de Amor, Vasco Graça Moura

Gastão Santana Franco da Cruz nasceu no dia 20 de Julho de 1941, em Faro.

Do mesmo autor:
Metal Fundente
Depois

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2014-07-19

Hoje...assim como ontem...


Nas minhas pesquisas sobre revistas de outrora deparou-se-me na "Branco e Negro, nº. 1 Semanário Ilustrado editada em 5 Abr. 1896 esta historieta de desvios de dinheiros... ao ponto de se sugerir um projeto de lei:

«Todo o que aliviar o tesouro, banco, asociação ou companhia em quantia superior a 50 contos poderá desde logo requisitar o seu passaporte ao ministério dos negócios estrangeiros e ir gozar em Paris os rendimentos da sua honesta fortuna»... (ortografia atualizada)

Não creio que tal lei tenha sido alguma vez publicada mas que nos tempos atuais (ainda mais do que outrora) se verificam evidentes efeitos práticos como se tivesse sido... ai disso parece não restarem dúvidas...

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MERINA - Cesário Verde

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.


in Branco e Negro Semanário Illustrado, Nº. 1, Lisboa, 5 de Abril de 1896

(atualizou-se a ortografia)

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2014-07-18

Um Pôr do Sol - Conde de Monsaraz

Quando entro no teu boudoir,
Clarinha, meu doce amor,
Parece-me antes entrar
No cálix de alguma flor;
Que é tal o aroma e tão pura
A frescura que aqui sinto
E tão bem me sinto aqui,
Que, Deus sabe se te minto,
Sonho que estou embalado
Entre as folhas duma rosa,
Na qual houvesse pousado,
Gazil como uma folosa,
Leve como um colibri!

Deixa-me abrir a janela:
A tarde é tranquila e mansa
Como um olhar de uma criança
Ou como um lago escocês;
Ouve-se o choro das bibes
Entre as noites orvalhadas,
Carpindo as horas magoadas
Da sua triste viuvez.

Cantam ao longe as ceifeiras;
Passam cansados os bois
Cabisbaixos, dois a dois,
Caminhando lentamente
Na sombra das azinheiras...
O sol expira num poente
De oiro e púrpura; os rochedos,
as choças, os arvoredos,
A igreja, o cruzeiro, a torre,
Toda a paisagem parece
Uma alma que se entristece
Ao ver um astro que morre!

Correm as águas do enxurro;
Lá se vai passando a ribeira
Uma pequena trigueira,
Cantando em cima dum burro;
E, mais distante, não ouves
A lamúria, a chiadeira,
Da nora regando as couves
Clarinha, como isto é puro!
Como isto é consolador!
Já vês porque eu te asseguro
Que, vindo aqui, só procuro
Dissipar esta tristeza
Em face da Natureza...
E aquecer os meus Invernos
nalguma réstia de amor -
Ou dos teus olhos tão ternos,
Ou dos teus lábios em flor.

Vê que belo horizonte
Recortado de pinhais!
Que concerto e que harmonia
Em linhas tão desiguais!
Dum lado a igreja; defronte
Uma cruz de cantaria;
Do outro a crista dum monte;
Ao fundo, acesa, a fornalha
Do sol, em cujo clarão
Destacam medas de palha
Onde, imóveis e tristonhas,
Vão meditar as cegonhas
Nas cousas da Criação!

É disto que eu necessito!
O Coração cobra alentos!
Sobem no espaço infinito
Revoadas de pensamentos;
E em cada sopro quie passa,
E em cada nota que vibra,
Toda a minha alma se libra
Cheia de encanto e graça!

Por isso no teu boudoir,
Clarinha, meu doce amor,
Quando aqui estou julgo estar
Nó cálix de alguma flor!

Que é tal o aroma e tão pura
A frescura que aqui sinto,
E tão bem me sinto aqui,
Que, Deus sabe se te minto,
Sonho que estou embalado
Entre as folhas de uma rosa,
Na qual houvesse pousado,
Gazil como uma folosa,
Leve como um colibri!


in A Musa Alentejana

Extraído de Obras do Conde de Monsaraz, III, Musa Alentejana, Lira de Outono, Versos Dispersos (século XX)
Instituto para Alta Cultura, Lisboa, MCMLVIII,

António de Macedo Papança, Conde de Monsaraz (nasceu em Reguengos de Monsaraz a 18 de Julho de 1852 — m. em Lisboa a 17 de Julho de 1913)

Ler do mesmo autor:
Os Bêbados
Salada Primitiva
Tristezas mortais
Os Bois
Moças de Bencatel
No Monte

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