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2015-04-27

Noturno nº 1 - Cassiano Nunes


Nunca me sinto pobre,
ao contemplar as estrelas.

Qualquer doido
(eu)
possui
o latifúndio do céu.

Aguardente negra e gratuita
a noite me embriaga.

Sonho melhor
acordado.

Cassiano Nunes (n. em Santos, 27 de abril de 1921 - m. Brasília 15 de outubro de 2007)

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2015-04-26

Caranguejola - Mário de Sá-Carneiro

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

in “Últimos Poemas”, Paris, Novembro 1915

Mário de Sá-Carneiro (n. Lisboa, 19 de Maio de 1890; m. em Paris, 26 de Abril de 1916 -suicídio).

Ler do mesmo autor neste blog:
Fim
Crise Lamentável
Escavação
Ápice
Além-Tédio
Quasi
Dispersão
I lost myself within myself... (tradução parcial do poema Dispersão)
Último Soneto
A Queda
IX - Como eu não possuo

Mário de Sá-Carneiro

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2015-04-24

Aspiração - Zeferino Brazil

Ser pedra! Não sofrer nem amar, que ventura!
Excelsa aspiração que merece um poema!
Ser pedra e ter da pedra a consistência dura,
que resiste do tempo à corrupção extrema!

Alma! Sopro de luz que me anima e depura,
antes tu fosses pedra: um diamante, uma gema,
não te seria a vida esta insana loucura,
esse eterno aspirar à perfeição suprema!

Homem, não mudarás! És homem, serás homem
lama vil animada, onde vive e onde medra
a venenosa flor das mágoas que consomem.

Homem sempre serás, imperfeito e corrupto. . .
E melhor é ser pedra e viver como pedra,
que ser homem assim e viver como um bruto!...


Zeferino Antônio de Souza Brazil, nasceu em 24 de abril de 1870, em Porto Grande, Taquari, Rio Grande do Sul e faleceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul a 3 de outubro de 1942.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Formosura Ideal;
Mãe Natureza;
Na Alcova
Os Torturados.

Zelos

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2015-04-23

A MÃO ENORME - Jorge de Lima

Dentro da noite, da tempestade,
a nau misteriosa lá vai.
O tempo passa, a maré cresce,
O vento uiva.
A nau misteriosa lá vai.
Acima dela
que mão é essa maior que o mar?
Mão de piloto?
Mão de quem é?
A nau mergulha,
o mar é escuro,
o tempo passa.
Acima da nau
a mão enorme
sangrando está.
A nau lá vai.
O mar transborda,
as terras somem,
caem estrelas.
A nau lá vai.
Acima dela
a mão eterna
lá está.


Jorge Matheus de Lima (n. em União de Palmares, Alagoas a 23 de abril de 1893, m. no Rio de Janeiro a 15 de novembro de 1953)

O Acendedor de Lampiões
Poema 17 de Invenção de Orfeu
Este Poema de Amor Não é Lamento
Distribuição Da Poesia
O Mundo do Menino Impossível
Minha Sombra

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2015-04-22

O Sul - Ruy Duarte de Carvalho


O sol o sul o sal
as mãos de alguém ao sol
o sal do sul ao sol
o sol em mãos do sul
e mãos de sal ao sol

O sal do sul em mãos de sol
e mãos de sul ao sol

um sol de sal ao sul
o sol ao sul
o sal ao sol
o sal o sol
e mãos de sul sem sol nem sal

Para quando enfim amor
no sul ao sol
uma mão cheia de sal?

In: Ruy Duarte de Carvalho. A Decisão da Idade. Luanda, União dos escritores Angolanos, 1976

Ruy Alberto Duarte Gomes de Carvalho nasceu em Santarém, Portugal a 22 de abril de 1941, naturalizado angolano faleceu em Swakopmund, Namíbia, em agosto de 2010.

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