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2014-04-17

Era uma vez... - Adolfo Simões Müller (na passagem dos 25 anos sobre o seu desaparecimento)

Contando históriasContando histórias - imagem daqui

Quando eu era pequenino,
gostava de ouvir contar
histórias de princesinhas
encantadas ao luar.

Havia então lá em casa
uma criada velhinha,
a Sérgia contava histórias
– e que graça que ela tinha!

Lendas de reis e de fadas,
inda me incheis a lembrança!
Que saudades de vós tenho,
ó meus contos de criança!

"Era uma vez…" As histórias
começavam sempre assim;
e eu, então, sem me mexer,
ouvia-as até ao fim.

Lembro-me ainda tão bem!
Os irmãos à minha beira,
calados! E a boa Sérgia
contava desta maneira:

"Era uma vez…" E depois,
olhos fitos nos seus lábios,
ouvia contos sem conta
de gigantes e de sábios…

"Era uma vez…" E, por fim,
a voz da Sérgia parava…
E assim como eu te contei
era como ela contava.

Ai! que saudade, que pena,
que nos meus olhos tu vês!
Eu sentava-me e ela, então,
começava: - "Era uma vez…"

In "O Príncipe Imaginário e Outros Contos Tradicionais Portugueses"

Adolfo Simões Müller (n. em Lisboa, 18 de Agosto de 1909; m. em 17 de Abril de 1989)

Ver do mesmo autor, neste blog:

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2014-04-16

Passei Toda a Noite - Alberto Caeiro

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.


in O Pastor Amoroso


Alberto Caeiro* (nasceu em 16 de Abril de 1889, em Lisboa. Órfão de pai e mãe, não exerceu qualquer profissão e estudou apenas até à 4ª classe. Viveu grande parte da sua vida pobre e frágil no Ribatejo, na quinta da sua tia-avó idosa, e aí escreveu O Guardador de Rebanhos e depois O Pastor Amoroso. Voltou no final da sua curta vida para Lisboa, onde escreveu Os Poemas Inconjuntos, antes de morrer de tuberculose, em 1915, quando contava apenas vinte e seis anos) biografia daqui
* um dos heterónimos de Fernando Pessoa

Ler de Alberto Caeiro, neste blog:
Li hoje quase duas páginas
Quando Vier a Primavera
O Guardador de Rebanhos- Poema II - O Meu Olhar
O Quê? Valho Mais Que Uma Flor
Para Além da Curva da Estrada
O Guardador de Rebanhos - Poema X
O Tejo é Mais Belo ...

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2014-04-15

Balada de Sempre - Fernando Namora



Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...

Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...

Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!-

Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...


in "Relevos"

Fernando Namora (n. em Condeixa a 15 de Abril de 1919; m. em Lisboa a 31 Jan. 1989)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Poema 8: Vem Cassilda olhar a madrugada que rompe
Intimidade
Poema Cansado de Certos Momentos
Poema da Utopia
Coisas, Pequenas Coisas
Noite

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2014-04-14

A Esperança - Vladimir Maiakóvski

Injecta sangue
        no meu coração,
        enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
        não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
        mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
       lavar,
       escovar,
       flanar,
       montar guarda.
Posso, se vos agradar,
       servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
       mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
       se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
       ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
       nas aflições,
       pesar...
Chamai-me!
       Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
       e alegorias,
malabares dar-vos-ei
       em versos.
Eu amei...
       mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?

(Tradução de Haroldo de Campos)

Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky (em russo: Влади́мир Влади́мирович Маяко́вский) Bagdadi, Georgia, 19 de julho de 1893 – Moscovo, 14 de abril de 1930)

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2014-04-11

BAIRRO LIVRE - Jacques Prévert

Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz continência
perguntou o comandante
Não
não se faz continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia continência
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro.


Trad. Eugénio de Andrade

Jacques Prévert(n. Neuilly-sur-Seine, França 4 Fevereiro 1900; m. Omonville-la-Petite, 11 Abril 1977).

Do mesmo autor: Café da manhã

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