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2015-01-26

Dança do Vento - Afonso Lopes Vieira

Vento imagem daqui

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia.
Baila, baila e rodopia
E tudo baila em redor.
E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando.
E suas folhas, tombando,
Uma se esfolha, outra cai.
E o vento as deixa, abalando,
- E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor.
E diz às altas ramadas:
Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas
Bailam no ar desgrenhadas,
Bailam com ele assustadas,
Já cansadas, suspirando;
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às folhas caídas:
Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
As folhas, por ele erguidas,
Pobres velhas ressequidas
E pendidas como um ai,
Bailam, doidas e chorando,
E o vento as deixa abalando
- E lá vai!
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
e as ondas no ar se empolam,
Em seus braços nus o enrolam,
E batalham,
E seus cabelos se espalham
Nas mãos do vento, flutuando
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!


Afonso Lopes Vieira (n. em Cortes (Leiria) a 26 de Janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1946).

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2015-01-25

foi-se embora de vez o sol, pela calada - Puri Fontes


foi-se embora de vez o sol, pela calada
pela porta fechada aos sonhos que trai
e estou mais serena agora, mais cansada
e não espero calor, não lastimo o abandono
nem espreito pelas frinchas do tempo algum regresso
não lamento, nem penso, nem anseio
nem choro as minhas asas caídas no passeio.

in Poemas de veneno e asas frias / Puri Fonte, Modo de Ler

Maria da Purificação Fontes, que usa o pseudónimo literário de Puri Fontes, nasceu em Cascais em 1947

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2015-01-23

TEMPO E CASUALIDADE - Edson Guedes de Morais

Nenhum deus me fez ou sabe.
Houve um gesto; depois,
a involuntária duração do gesto
como um punhado de areia
que se atira para o alto.

O fado é não podermos ver,
a cavaleiro, nossos próprios passos,
esquecermos depressa a semeada
e este germinar à nossa frente.

Muito antes de mim, depois,
a folha, o vento e o movimento
da folha sobre a estrada pelo vento.


Edson Guedes de Morais nasceu em Campina Grande (PB), em 23 de janeiro de 1930

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2015-01-22

Soneto V de Poemas do Cárcere - António Alves Martins

A tão longa saudade destes dias,
E destas noites a tão longa dor,
São uma bela penitência, Amor,
Por essas horas que eu tornei sombrias!

As horas que entre nós têm sido frias,
Por minha culpa, deixa-me supor
Que já lhes deu ternura este calor
Que sempre, como agora, merecias!

A minha culpa sinto-a resgatada!
- Bemdita seja a cela condenada
A aprisionar tão longa saudade...

Bemdita seja, sim, pois a ternura
Que sinto agora, vem desta amargura,
E, por ela, comungo a Eternidade!

António Alves Martins (sobrinho do Bispo de Viseu D. António Alves Martins), nasceu em Viseu em 1 de outubro de 1894 tendo falecido na mesma cidade a 22 de fevereiro de 1929.

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2015-01-21

Notte: Sogno di Sparse... / Noite: Sonho de Esparsas... - Sandro Penna

Noite: sonho de esparsas
janelas iluminadas.
Ouvir a clara voz
do mar. De um livro amado
ver as palavras
sumirem ... – Oh estrelas fugidias
o amor da vida!


(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)

Original

Notte: sogno di sparse
finestre illuminate.
Sentir la chiara voce
dal mare. Da un amato
libro veder parole
sparire... – Oh stelle in corsa
l'amore della vita!


de Poesie (1939)


Sandro Penna (n. Perugia, 12 Jun. 1906 – m. Roma, 21 jan. 1977)

Do mesmo autor:
A Lição de Estética
De come è forte il rumore
Torna um pensar de amor / Torna un pensier d'amore
Viver eu queria adormecido / Io vivere vorrei addormentato

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