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2014-12-17

Soneto [Sonhei-te tantos anos! Tantos anos!] - Gilka Machado

Sonhei-te tantos anos! Tantos anos!
Eras o meu ideal de amor e de arte,
buscava-te a toda hora e em toda parte
nessa ânsia inexplicável dos insanos.

Enfim, vencida pelos desenganos,
como quem nada espera que lhe farte
a alma faminta, exausta de sonhar-te,
abandonei-me do destino aos danos.

Surges-me agora, em meio da jornada
da Vida: vens do Inferno ou vens da Altura?
- Não sei: mas de ti fujo, apavorada!

E, em lágrimas, minha alma conjetura:
uma felicidade retardada
quase sempre se torna desventura.


in "Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou", J.G . de Araujo Jorge - 1a ed. 1963

Gilka da Costa de Mello Machado - Poeta brasileira nascida no Rio de Janeiro (RJ) no dia 12 de março de 1893, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), a 17 de dezembro de 1980.

Ler ainda da mesma autoria, neste blog:
Saudade
Lembranças
Esboço
Símbolos

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2014-12-16

XXXI - [Longe de ti, se escuto, porventura] - Olavo Bilac

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.


Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (nasceu no Rio de Janeiro a 16 de dezembro de 1865 e morreu na mesma cidade a 28 de dezembro de 1918).

Neste blog pode encontrar do mesmo autor, mais os seguintes poemas:
Delírio
Por estas noites frias e brumosas
Vita Nuova
Por Estas Noites

Via Láctea
Nel Mezzo del Camin
Ao coração que sofre
Por tanto tempo
Um beijo
Como Quisesse Livre Ser

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2014-12-15

A Quinteira da Panasqueira - António Maria Eusébio

Mote
Fui apalpar as gamboas
Que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
meu saber ninguém disputa,
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura…
Gosto do que tem doçura;
Quero e gosto das mais pessoas:
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira,
com licença da quinteira,
fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei
dei cambalhotas e saltos,
depois de apalpar pêlos altos
pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta;
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda,
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.

Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua,
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros,
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima,
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
Num regato ao pé dum poço,
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
a menina dê-me um cacho,
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.


A resposta da quinteira

Mote

Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão.


Glosa

Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama,
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora,
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos;
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca,
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha;
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me a tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.

(Versos brejeiros e satíricos,
cantigas para guitarra).

in Antologia de Poesia Erótica e Satírica Portuguesa - Selecção, prefácio e notas de Natália Correia. Antígona. frenesi

António Maria Eusébio, o “Calafate” ou o “Cantador de Setúbal”, (Setúbal, 15 de dezembro de 1819 — Setúbal, 22 de novembro de 1911)

Ler ainda do mesmo autor: Nunca fui mal procedido

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2014-12-14

A UMA FONTE QUE SECOU - Teixeira de Pascoaes

Com teus brandos murmúrios embalaste
Os minutos dos meus primeiros dias.
E pelos teus gemidos os contaste;
Eu era então feliz e tu sofrias.
As minhas velhas árvores regaste,
O meu jardim ao sol reverdecias...
E quando as tuas lágrimas choraste,
Como a dor que hoje sofro, entenderias!
Mas, aí, tudo mudou! Seca estiagem
Bebeu, a arder em febre, as tuas águas;
Versos de água cantando a minha imagem.
Raios de sol que as fontes evaporam,
Levando para Deus as suas mágoas,
Secai também os olhos dos que choram!.


Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, que usou o pseudónimo litrerátrio de Teixeira de Pascoaes, nasceu em 8 de novembro de 1877 (*) em Amarante; m. em 14 de dezembro de 1952.

(*) Conforme assento oficial de nascimento; de algumas fontes biográficas consta a data de 2 de novembro

Ler também do mesmo autor:
Canção da Névoa
V - Chegada de Marânus à Montanha (excerto)
Ao Crespúsculo
Esperança e Tristeza
Além de mim
O Poeta
A sombra do Tâmega;
Canção da Névoa
À Minha Musa
A Sombra da Vida (excerto)
Elegia do Amor;
Quem és tu? De onde vens?...

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2014-12-13

Ler as estrelas - Fernando Semana

Criança, olhava eu para as estrelas, certa vez,
fascinado, enquanto coisas longínquas e belas,
e disse-me, austera mas terna, a minha mãe:
Não apontes para o céu que te nascem cravos nas mãos.
Amén: nas minhas mãos nasceram cravos...
E assim fiquei analfabeto em estrelês.

Tantos anos volvidos, dou-me a olhar para as estrelas,
Ainda fascinado pelas coisas longínquas e belas,
Com redobrada curiosidade, a querer lê-las,
Mas não sei decifrar o que elas me dizem...

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