Blog Widget by LinkWithin

2014-04-24

Conta-mo Outra Vez - Amalia Bautista

Conta-mo outra vez, é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o par
do conto foi vfeliz até à morte.
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe vocorreu enganá-la. E não te esqueças,
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuaram beijando-se cada noite.
Conta-me mil vezes, por favor:
é a história mais bela que conheço.


In "Qual é a minha ou a tua língua - Cem poemas de amor de outras línguas"
Organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim

Read More...

2014-04-23

Soneto 28 de William Shakespeare, versão de Carlos de Oliveira

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.

Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.

Digo ao dia que brilhas para ele,
Que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel

na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

Transcrito de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.


SONNET 28

How can I then return in happy plight,
That am debarred the benefit of rest?
When day’s oppression is not eased by night,
But day by night and night by day oppressed?
And each (though enemies to either’s reign)
Do in consent shake hands to torture me,
The one by toil, the other to complain
How far I toil, still farther off from thee.
I tell the day to please him thou art bright,
And dost him grace when clouds do blot the heaven;
So flatter I the swart-complexioned night,
When sparkling stars twire not thou gild’st the even.
But day doth daily draw my sorrows longer,
And night doth nightly make grief’s length seem stronger.

in Complete Sonnets and Poems, edited by Colin Burrow, Oxford University Press, 2002.

William Shakespeare (b. Stratford-upon-Avon, Warwickshire, England, born probably on 23 April 1564 - baptised 26 April 1564; died Stratford-upon-Avon, Warwickshire, England, 23 April 1616)

De ti me separei na Primavera
Sonnet XVIII / Soneto XVIII
Music to Hear (Sonnet VIII)


Read More...

2014-04-22

A Um Caçador - Augusto de Lima

Olha esta plumagem linda,
íris formoso e suave:
não sentes remorso ainda?
que mal te fez a pobre ave?

O projétil avicida
quebrando-lhe as asas, deu
um jorro desta ferida
de sangue da cor do teu ....

Há uma só lei da Existência
sob a esfera luminosa:
partilham da mesma essência
homem, ave, estrela e rosa.

Ela cantando vivia,
Correndo, voando no ar.
Será delito – a harmonia,
Um atentado – voar?

Vivia tecendo ninhos
Para os filhotes, apenas;
Pobres menores mesquinhos,
Sem mãe e ainda sem penas!

As normas da natureza,
fiel, não quebrou jamais;
nunca invadiu da pobreza
os minguados cereais.

Vê bem que fizeste, dando
a morte a este mártir ente.
És réu de um crime nefando,
verteste o sangue inocente.

Ai! prole da primavera,
que será dela amanhã?
Pela mãe espera, espera ....
porém, esperança vã.

De tudo o que canta e voa
e fulgura és odiado:
a aurora não te perdoa,
condena-te o sol dourado.


in “Poesias”, Augusto de Lima, Editora H. Garnier, Rio de Janeiro / Paris, 1909

Antônio Augusto de Lima (n. Nova Lima, então Congonhas de Sabará, a 5 de Abril de 1859; m. Rio de Janeiro, 22 de Abril de 1934)
Sonâmbula
Volta ao Passsado
Esperança e Saudade
Serenata
A Um Otimista

Read More...

2014-04-21

Ao Luar - Augusto dos Anjos




Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tactil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (n. no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884; m. em Leopoldina em 12 de novembro de 1914).

Ler do mesmo autor:
Debaixo do Tamarindo
A Ideia;
Tempos Idos;
Versos Intimos;
Soneto (canta teu riso...)
Contrastes
Psicologia de um Vencido
A Minha Estrela
O sonho, a crença e o amor
Budismo Moderno

Read More...

2014-04-19

Soneto - E. M. de Melo e Castro

há uma linha subtil que tu partiste
no medo desmedido mas contente
uma causa cruel que não se sente
mas é a vida a terra que tu viste

se logo o vento vário não resiste
e a história ferida se desmente
não aqueças a dor da tua mente
nem a luz que nos olhos te subsiste

e se rires do pó o dissolver-te
em tanta coisa a cor que se mudou
na água tédio médio de só ver-te

corta as linhas maiores do que ficou
na sede de partir e de perder-te
no chão como uma fonte que secou


Extraído de «Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro nasceu na Covilhã em 19 de abril de 1932

Read More...