Blog Widget by LinkWithin

2014-10-24

Voz Íntima - Amadeu Amaral

Dreams, Serigraph on canvas, 20" x 24 1/2",

Fecha-te, sofredor, na alva túnica ondeante
Dos sonhos! E caminha, e prossegue, embebido,
Muito embora, na dor de um fiei celebrante
De um estranho ritual desdenhado e esquecido!

Deixa ressoar em torno o bárbaro alarido,
Deixa que voe o pó da terra em torno... Adiante!
Vai tu só, calmo e bom, calmo e triste, envolvido
Nessa túnica ideal de sonhos, alvejante.

Sê, nesta escuridão do mundo, o paradigma
De um desolado espectro, uma sombra, um enigma,
Perpassando sem ruído a caminho do Além.

E só deixes na terra uma reminiscência:
A de alguém que assistiu à luta da existência,
Triste e só, sem fazer nenhum mal a ninguém.

Amadeu Arruda Amaral Leite Penteado (n. em Capivari, São Paulo, a 6 de Nov. de 1875; m. em São Paulo a 24 de outubro de 1929).

Ler do mesmo autor, neste blog
Rios
Soneto da Serpente
Lua
Versos Nevoentos
Sonho de Amor

Read More...

2014-10-23

RECADO - Nuno Pereira (no 90º aniversário do poeta caboverdeano)

Quando aportares
Dá-lhes notícias de mim nesta cidade.

Diz-lhes da voz surda estremecendo
E leve e tonta no meu peito
Como se nada fora ao vento que se escapa
A este céu onde viceja um cravo
A flor do meu destino.

Diz-lhes que me vou às vezes da noite roxa
Pelos subúrbios de tons bem calmos
Na ronda de lembranças já mortiças
Mas, velhas cicatrizes não saradas,
Ai de mim
Que não encontro as ruinhas serpeando
Pela minha intimidade
O limo nos beirais das ruas do porto
O sonho do mar alto em cada olhar ficado
Não vejo a casa velha
E o terreiro alto onde ancoravam
Os nocturnos das viagens de arrabalde.

Que é dos traquetes tombados e dos botes carcomidos?..

Só a lembrança de outrora
Na flor deste destino.

Se te falarem de mim quando aportares
Diz-lhes que vai ao longe
Na cidade a estibordo
A nave desta carne macerada
E a asa da minha alma em céu aberta…


Nuno Alvares Miranda nasceu a 23 de outubro de 1924, no Mindelo, S. Vicente, em Cabo Verde

in "40 Poemas Escolhidos” (Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1974)

Read More...

2014-10-22

Fotógrafo Ambulante - Oswald de Andrade (na passagem dos 60 anos sobre o seu desaparecimento)

Fixador de corações
Debaixo de blusas
Álbum de dedicatórias
Marquereau

Tua objetiva pisca-pisca
Namora
Os sorrisos contidos
És a glória

Oferenda de poesias às dúzias
Tripeça dos logradouros públicos
Bicho debaixo da árvore
Canhão silencioso do sol


José Oswald de Sousa Andrade Nogueira (n. São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — m. São Paulo, 22 de outubro de 1954)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Pronominais
Erro de Português
Morro Azul
Canto de Regresso à Pátria
Oferta


Read More...

2014-10-21

Ao poeta perguntei - Alberto Janes (fado na voz de Ana Moura)



Ao Poeta Perguntei by Ana Moura on Grooveshark


Ao poeta perguntei
Como é que os versos assim aparecem
Disse-me só: Eu cá não sei
São coisas que me acontecem

Sei que nos versos que fiz
Vivem motivos dos mais diversos
E também sei que sempre feliz
Não saberia fazer os versos

Ó meu amigo, não penses que a poesia
É só a caligrafia num perfeito alinhamento
As rimas são assim como o coração
Em que cada pulsação
Recorda sofrimento
E nos meus versos pode não haver medida
Mas o que há sempre são coisas da própria vida

Fiz versos como faz dia
A luz do sol sempre ao nascer
Eu fiz os versos porque os fazia
Sem me lembrar de os fazer

Como a expressão e os jeitos
Que pra cantar se vão dando a voz
Todos os versos andam já feitos
De brincadeira dentro de nós

Alberto Janes (Reguengos de Monsaraz, 13 de Março de 1909 — Lisboa, 21 de Outubro de 1971)

Read More...

2014-10-20

Enquanto Durmo .- Paulo Themudo


Uma folha de papel
Amparada pelas minhas mãos,
Berço de criança
Que embalo no tempo.
Qual relógio que não pára
E me desorienta
A fugir... A deixar para trás
A mortalha que me fez silêncio.
Eu queria o mundo
A passar nos meus olhos,
Uma luz vã e serena
Para madrugar os meus sonhos.
Queria tão pouco
E tão pouco recebi...
Desse tempo
Que nunca esqueci.
Fui uma voz embalada
Nesse silêncio que se oculta,
O quanto foi essa figura, bizarra,
Carismática, a perder os dias
sem sentido, sem criação,
sem nada.
Eu visto o frio
O gelo que me estremece,
As palavras dormentes
Que trago
Em rosto de papel
Que escreve o tempo.
O tempo é o silêncio
O puro vazio
Onde quase enlouqueço.
E perguntam-me se mereço...
Não sei... Não esqueço.
Recordo a firmeza desses tempos
Ainda as minhas mãos se elevavam
No rosto do vento,
No soprar incandescente
De um sol nascente.
Consegui ser eu próprio por momentos
Enquanto tive tempo,
Mas o tempo escasseava
E logo se extinguiu o momento.
Que seria de mim hoje
Se me tivesse deixado levar
Pelas razões antigas
Que em berço de papel
Me embalavam
Para viver sem tormento?
Não sei...
Sou gente...
Gente desse tempo,
Foi outro momento
Que nunca mais virá,
E que não sei... Lamento?...


Paulo Themudo Gomes nasceu em 20 de outubro de 1968 na cidade de Matosinhos

Read More...