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2015-03-31

Silêncio - Octavio Paz

Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.


in "Liberdade sob Palavra"
Tradução de Luis Pignatelli

Octavio Paz Lozano (Cidade do México, 31 de março de 1914 — Cidade do México, 19 de abril de 1998)

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2015-03-30

O Retrato? - Adelino Fontoura

Vou fazer-te, leitor, o seu retrato:
— É pálida, gentil, encantadora,
tem a doce atração fascinadora
das cristalinas águas dum regato.

O chic do dizer nervoso inato
tive-o voz vibrante, sedutora,
brilham nessa loquaz criança loura
a graça, a distinção, o fino trato.

É olhá-la uma vez e sentir presa
a vontade ao seu todo de burguesa
que conversa em francês e sabe história.

Mas o reverso da medalha espanta.
Tangendo o violão, lânguida, canta:
— Quis debalde varrer-te da memória!


Extraído de O Verso e o Silêncio de Adelino Fontoura,
José Neres, Jheisse Lima Coelho e Viviane Ferreira. São Luís JNEdições, 2011

Adelino da Fontoura Chaves (n. em Axixá, Maranhão, Brasil a 30 Mar. 1859* – m. em Lisboa, Portugal a 02 Maio 1884)
* algumas fontes indicam como data de nascimento a de 30 de março de 1855.

Ler do mesmo autor:
Atração e Repulsa
Celeste
Fruto Proibido
Página Desconhecida
Jornada

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um dizer ainda puro - Vasco Gato


imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

in Um Mover de Mão, Assírio & Alvim, 2000.

Vasco Gato nasceu em Lisboa a 30 de março de 1978

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2015-03-27

A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI - Affonso Romano de Sant'Anna


A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

Affonso Romano de Sant'Anna (Belo Horizonte, 27 de março de 1937)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Cilada Verbal
O Homem e a Morte
Silêncio Amoroso
Arte-final
Hino da Canalha

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2015-03-26

Apólogo - A Sereia, o Crocodilo e o Macaco

Disputavam fortemente
Nas frescas margens do Nilo,
Sobre o manejo do engano,
A Sereia e o Crocodilo

Jactava-se este vil monstro
Matar os homens, chorando;
Vangloriava-se a Sereia
Matando os homens, cantando.

"Eu (dizia o Crocodilo)
Afecto um chorar mavioso;
Depois despedaço - rindo -
A quem me acode piedoso"

"Pois eu não; com mais destreza
Sonora me faço ouvir:
(Disse a Sereia) - e nas ondas
Faço os nautas submergir"

Um macaco, que enroscado
Estava numa palmeira,
Ouviu atento a conversa
Da jactância carniceira:

Mas - não podendo sofrer
A tal questão depravada -
Deu, do ramo onde pousava,
Uma tremenda apupada.

Eis nisto as feras - alçando
os olhos e vendo o Môno
Fazendo várias momices
Mui repimpado eu seu trono -

Lhe disseram: "Já que ouviste
Do nosso engano os ardis,
Sê desta nossa contenda
Hoje, ó Macaco, o juiz.

Nós nos louvamos em ti,
Como as Deusas se louvarão
Em Paris, quando do pômo
De oiro a posse disputarão.

Decide prudente, e recto
Qual de nós é mais tirano;
Qual de nós deve empunhar
O ceptro do falso engano"

O Macaco, assaz manhoso,
E assaz no mundo experiente
Dos monstros da Natureza
Sentenciou de repente:

"Tenho ouvido a vossa teima
Podeis casar sem dispensa:
Ambos reunis o engano
Da mulher - eis a sentença!"

A decisão do Macaco
Nesta fábula nos diz
Que a mulher reune em si
Dos dois monstros os ardis.

A mulher engana - e mata -
Quando se põe a chorar
A mulher engana - e mata -
Quando se põe a cantar.

Homens, fazei-vos Macacos;
Senão - ficareis perdidos:
Ou a mulher cante ou chore,
Tapai os vossos ouvidos.

in O moribundo Cysne do Vouga, Collecção D'algumas peças mais importantes extrahida das Obras poéticas do Snr. Francisco Joaquim Bingre nos últimos momentos da sua vida; Porto, Typographia Commercial,  1850


Francisco Joaquim Bingre nasceu em S. Tomé de Canelas, Estarreja no dia 9 de julho de 1763 e morreu em Mira a 26 de março de 1856).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Soneto de Despedida
Paciência, um Sofrimento Voluntário
Retrospectiva
Meus Versos
A Camões





















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