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2014-10-01

Perdi-te numa manhã clara de junho... - José Rui Teixeira (na passagem do 40º aniversário)

perdi-te numa manhã clara de junho em
que imaginei que estarias comigo
corrias num horizonte azul
que só mais tarde descobri ser teu
e dei comigo enraizado na terra
de um sonho em que julguei que fosses minha


in Quando o Verão Acabar, Vila Nova de Famalicão, Quasi edições, 2002

Cada instante é um lugar perdido em que te entregas
Trago dentro de mim um mar imenso

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2014-09-30

Canção do Poeta pequenino - José Eduardo Pizarro Drummond


O poeta pequenino
Olhava-me, e a toda gente,
Com olhinhos de quem sente;
Mas não sabia falar...

Ficava horas inteiras
Olhar vago... a meditar.

Certa vez o vi tão triste
Que parecia chorar.

Outras o vi tão contente!
Todo a sorrir e a cantar...

- Mas que cantava o poeta?
Ninguém sabia explicar!

0 poeta morreu menino.

Ai! poeta pequenino
Que não sabia falar...


in Antologia da Nova Poesia Brasileira, J. G . de Araujo Jorge - 1a ed. 1948

José Eduardo Pizarro Drummond nasceu em 30 de setembro de 1925, em São Paulo. Faleceu em 18 de outubro de 2007, na cidade do Rio de Janeiro.

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2014-09-29

Sem outro intuito - Luís Miguel Nava


Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.


in Vulcão, Lisboa, Quetzal, 1994

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (nasceu em Viseu, 29 de setembro de 1957 — m. Bruxelas, 10 de maio de 1995)

As ondas que se encontram
Os Pratos da Balança
O Último Reduto

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2014-09-28

Como a Noite Descesse - Emílio Moura

Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e desesperado
diante dos horizontes que se fechavam
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora! e vi logo
só as estrelas é que me entenderiam.

Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
- É por aqui!

Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
- Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...

se só as estrelas é que me entenderiam?


Emílio Guimarães Moura (n. Dores do Indaiá, Minas Gerais, em 14 de agosto de 1902 — f. em 28 de setembro de 1971, em Belo Horizonte, Minas Gerais)

Pernmanência do Poema
Canção
Sombras Fraternas

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2014-09-27

Numa Tarde Macia - Rodrigues de Abreu

Quando a tarde agoniza, eu sonho. E então levanto
o meu sonho de amor para o céu, como santo,
pois sei que uma mulher vem, mansa como a brisa,
colher meu sonho bom, quando a tarde agoniza...

Como uma procissão de freiras tristes, passa
a lenta procissão das sombras. No ar esvoaça
tênue aroma, sutil sonho da terra mansa
que adormece em silêncio e em incerta esperança...
Na tarde, as flores têm desejos de pecar:
o Desejo desdobra as asas, voa no ar,
quando a primeira estrela aparece no fundo
do firmamento, para enamorar o mundo...
O céu é um grande espelho embaciado de sangue...
E há no céu e há na terra uma tão pura e langue
agonia de sons, que, nessa hora, parece
que o Mundo se ajoelha em postura de prece!

O Santo Sonho plange, em soluços, nos sinos,
e erra, brancas, no espaço as almas dos violinos...
A tarde, na agonia, interpreta, sonora,
Schumann, Schubert, Chopin, pois uma tarde chora...

Como eu, o vale pensa, e no alto, a nuvem pensa...
A mesma alma que vem do céu e, triste e imensa,
erra na tarde, vive em mim, cheia de sono:
minha alma é tarde triste e musical de Outono...

Quando a tarde agoniza e suave chora, quanto
envolve as coisas, numa angústia, a alma do pranto,
os anjos descem do alto, abraçando violetas
e colhem, suavemente, os sonhos dos poetas...
Foi numa tarde assim, quando os anjos desciam
do céu e os sonhos bons, suavemente, colhiam,
que uma mulher tomou a forma de anjo e veio,
entre os anjos, colher a flor do meu anseio...
E ela veio, e colheu meu sonho, e, comovida,
se tornou a minha Ânsia e a Só na minha vida...

Eis porque, quando a tarde agoniza, eu levanto
o meu sonho de amor para o céu como um santo:
pois ela sempre vem, nas asas de uma brisa,
colher meu sonho bom, quando a tarde agoniza...


(A Sala dos Passos Perdidos)


Benedito Luís RODRIGUES DE ABREU (nasceu em Capivari (SP) a 27 de setembro de 1897 e morreu em Bauru (SP) a 24 de novembro de 1927).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Casa Destelhada
Mar Desconhecido
Ao Luar
Suprema Glória
Crianças
As Andorinhas

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