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2015-07-07

VELHA ANEDOTA - Artur de Azevedo


Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de dar um bom conselho,
Tipo, morto, não faria falta.

Lá um dia deixou de andar à malta,
E indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, em frente de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

-Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se faz preciso?

Penetrando na sala, o pai sisudo
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: - Juízo!

Artur Nabantino Belo Gonçalves de Azevedo nasceu em São Luís (MA) a 7 de julho de 1855 e faleceu no Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908.

Ler, neste blog, do mesmo autor:
Arrufos
Por Decoro
Eterna Dor

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2015-07-06

Posfácio À Toca do Lobo - Tomaz de Figueiredo

- Pai, vem da morte e vamos às perdizes.
Vejo a aurora, que tinge do seu rajo
de dente a dente a Serra de Soajo...
- Ciprestes, desatai-o das raízes!

- Este Inverno as perdizes estão em barda:
criaram-se as ninhadas sem granizo.
Vamos chumbar dos perdigões o guizo,
anda matar securas da espingarda.

A tua Holland... O animal de presa...
O azul brunido... Velha e como nova...
Bem a merecias a alegrar-te a cova.
Penou-te de saudades, com certeza.

Aqui a tens. Porque era ver-te, olhá-la,
sequer um dia que não fosse vê-la.
Olha deluz-se a derradeira estrela,
já folga a luz no lustra aqui da sala.

Trinta anos depois, caçar contigo,
e sempre conversando e à chalaça...
Mais que perdizes, hoje, melhor caça
É matar fomes do caçar antigo.

Ver-te sorrir à escapatória sonsa
da velha que não viu «perdiz nem chasco!»
E o Lorde a anunciá-la sob o fasco,
e tu lambendo o cigarrinho de onça...

Ó pai, se não vivias há trinta anos,
também há trinta eu não vivia, pai!
O sol, reacendido, vem e vai
divagando no aço inglês dos canos.

Ali, agora, o nosso amigo Lorde,
que tornou da raiz a laranjeira...
Dá aos queixos, marrado, na tojeira.
Vê cinco da bandada. Cinco morde.

O amigo espera. Vê. Petrificou-se.
Esperam as perdizes que medusa.
Vai lá tu só. Desacolcheta a blusa.
Secundaste a chumbada! Pai, que fouce!

Como na morte nem perdeste a mão
De pôr a Holland à cara e desfechar!
Na mesa o nosso Lorde o seu narrar,
E a vista, o faro, o tento e a paixão!

Tens sede... Oiço a chamar-nos uma fonte...
Vamos beber de borco, à antiga moda.
Sentemo-nos na relva, amando em roda,
ouvindo as idas falas do horizonte.

À moda muito nossa, de poetas...
Eu a falar de bulhas, bofetões,
a perdigões contando os esporões
e, sob a cauda, as régias pintas pretas.

À nossa moda antiga e hoje a mesma...
Traz-nos o vento lemes de penisco.
Desce a beber na fonte, agora, um pisco,
assustando os pauzinhos duma lesma.

E tu a perguntares dos meus estudos...
Que tal o meu Francês, o meu Latim?
«Ó pai, quando ao Latim, assim-assim...»
Ah! pai, que somos dois soluços mudos!

Lá vejo a nossa casa. Estás a vê-la?
O nosso tanque, a fonte, o laranjal?
E a Maria Velha, no quintal,
com um cesto de roupa e a estendê-la?

Ah! Meu pai, que até vejo pelos muros!
Lá te alcanço, da mesa à cabeceira.
Também deitando achas à lareira
(E todos nós, da vida tão seguros...)

A bica ali da fonte era de vento,
as perdizes, sequer embalsamadas,
o Lorde, sombra de asas afogadas,
falcão de frio e fome, o pensamento.

Ah! pai, que me repassam os nordestes,
que vejo além ferrugens de mil cruzes:
de dia, embora, palpitando luzes
e a palma de verdete dos ciprestes.

  in 'Aos Amigos'
 
Tomaz Xavier de Azevedo Cardoso de Figueiredo (nasceu em Braga, 6 de julho de 1902 — faleceu em Lisboa, 29 de abril de 1970).

Do mesmo autor:
Ó Portuguesa Língua. adeus te digo

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2015-07-05

Destino - Mia Couto


à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

In Raiz de Orvalho e Outros Poemas.

Mia Couto é o pseudónimo de António Emílio Leite Couto nascido a 5 de julho de 1950 na cidade da Beira, em Moçambique

Do mesmo autor ler:
Pergunta-me
A demora
Números

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2015-07-04

Torre de Marfim - João Lúcio

Quando, em baixo, ruge, o temporal, sem fim,
Dessa miséria, oh pó, em que tu te esfacelas,
Eu subo à minha torre esguia, de marfim,
Onde me côa, o sonho, o filtro das estrelas.

Sai-me ao encontro a Musa. E o seu olhar pleno
De longínquo e mistério, enche-me o Pensamento;
A Musa, que eu guardo, entre o éter sereno,
Como um velho sultão, avaro e ciumento.

E ficamos, os dois, na torre em solidão,
Onde, a luz do luar, faz de tapeçaria,
Mineiros da Quimera, à busca do filão,
Que tem o diamante azul da Fantasia.

Da Fantasia, que é, em essência, somente
Um jacto de clarão, num nevoeiro escuro:
N’voeiro, que condensa a sombra do Presente,
E clarão, que nos traz já a luz do Futuro.

Foi sob esse clarão, nessa torre isolada,
Que fomos lapidando os versos fatigantes,
Mineiros, que tortura a raiva desolada,
De não ter encontrado o filão dos diamantes.


João Lúcio Pousão Pereira (n. Olhão, 4 de Julho de 1880 - m. 26 de Outubro de 1918)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Deixa-me Beber-te  a Formosura
Sensações Desconhecidas
Tarde de Leite e Rosas Ouvindo Floresta

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2015-07-03

Caminhada - Fernando Semana

Não esperes compreensão pelo defeito
Mesmo que bom trabalho antes tenhas feito.
As coisas são fátuas e os homens fúteis,
As vitórias voam e as derrotas são inúteis.

Cada novo dia é uma provocação:
Uma oportunidade, tantas ameaças.
Faz tanto, mas por mais que faças
Não te iludas, faltará a conclusão:

Estás sempre a meio do caminho!
Prossegue e bebe um copo de vinho.
Busca não estar contra os outros

Mas vive, em especial, de bem contigo.
Se a métrica nem a rima consigo
Sejam os versos livres mas não neutros.


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