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2015-05-26

A Árvore - Fábio Montenegro

Hirta, negra, espectral, chora talvez. Responde
Seu próprio choro, à voz do vento que a fustiga,
Ela que ao sol floriu, floriu às chuvas, onde
A paz é santa, o campo é doce, a noite é amiga ...

Essa que esconde a chaga, essa que a história esconde,
Que conhece a bonança e a borrasca inimiga,
já foi flor, foi semente, e, sendo arbusto, a fronde
Ergueu para a amplidão às aves e à cantiga.

Que infinita tristeza o fim da vida encerra
A quem já pompeou do Sol na própria luz.
As flores para o céu e a sombra para a terra!

Foi semente, brotou... Árvore transformada,
Sorriu em cada flor; e hoje, de galhos nus,
Velha, aguarda a tortura estúpida do nada!


Fábio Montenegro nasceu em Santos, SP a 26 de maio de 1891 e faleceu a 21 de agosto de 1920.

Do mesmo autor: Abstração

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2015-05-25

D. Quixote - Maria Virgínia Monteiro

Don Quijote de La Mancha and Sancho Panza,
1863 Gustave Doré

Nunca serás dos escolhidos, dos primeiros
(dos bem amados senhores do Absoluto!).
Vestido chegas de saudade, por janeiros,
e arrastas longos teus farrapos e o teu luto.

Mas não te apontem os caminhos verdadeiros
os que possuem da Verdade o usufruto,
os que mantêm, esforçados cavaleiros,
as torres altas da Mudança por reduto!

Cavaleiro apenas és, de esporas rotas,
sem vitórias conseguidas, de armas botas,
pelos caminhos esgrimindo vacilante,

como bálsamo o choro das derrotas
nas feridas, trespassados elmo e cotas,
D. Quixote sem cavalo Rocinante.

Mª VIRGÍNIA Santos Teles Guerra MONTEIRO nasceu em Espinho a 25 de Maio de 1931. Filha do poeta Oliveira Guerra, licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras do Porto e exerceu o magistério no ensino secundário. Poetisa bilingue, publicou: «Mulher de Loth» (1992), «...Ribeiro, teu indício» (1995), «O Silêncio Todo» (2000), «Ces Quelques Lettres Portugaises» e «As Cinzas e as Brisas» (2002), e «Precário Registo» (2003).

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2015-05-22

E porque hoje é o Dia do Abraço: Dá-me um abraço (de Miguel Gameiro)





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A Triste Flor - Victor Hugo


À linda borboleta ali brilhante
A flor dizia assim:
Que diferentes somos! Vês que eu fico
E tu foges de mim!

Nós vivemos contudo sem os homens
Sem eles nos amamos
E ambas formosas, ambas flores, dizem
Que nós nos semelhamos

Mas o ar te conduz! ... e eu fico presa!
Que triste o fado meu!
Com meu perfume antes soprar quisera
No céu o vôo teu.

Mas não, que longe vais! Por entre as flores
Me vais fugindo
E eu fico a ver-me a sombra que na terra
Se está bolindo...

Vais e voltas e foges para longe
Mais caprichosa!
Assim me encontras sempre a cada aurora
Toda chorosa.

Ah! Porque doravante não soframos
Mágoas tão cruas
Como eu, cria raiz, - ou presta-me asas
Como essas tuas.

Ou rosa ou borboleta, - a morte cedo
Nos vem buscar;
Não a esperemos não; vivamos juntas
Num só lugar

Num só lugar, ou sejam mansos ares
Se ali te exaltas;
Ou sejam campos, se é ali que a relva
De pranto esmaltas!

Não importa o lugar! - o que que sejas,
Alento ou côr
Ou corola orvalhada, ou borboleta.
ou asa ou flor,

Vivamos juntas, onde mais te agrade;
Pouco importa o lugar:
Que ou seja terra ou céu, estando juntas
Nos havemos de amar.

Trad. Gonçalves Dias

in Hugonianas: poesias de Victor Hugo traduzidas por poetas brasileiros. Teixeira, Múcio 1857-1926

La Fleur et le Papillon

La pauvre fleur disait au papillon céleste:
"Ne fuis pas !
Vois comme nos destins sont différents. Je reste,
Tu t'en vas!

Pourtant nous nous aimons, nous vivons sans les hommes,
Et loin d'eux,
Et nous nous ressemblons, et l'on dit que nous sommes
Fleurs tous deux!

Mais, hélas! L'air t'emporte, et la terre m'enchaîne.
Sort cruel!
Je voudrais embaumer ton vol de mon haleine,
Dans le ciel!

Mais non! tu vas trop loin! Parmi des fleurs sans nombre
vous fuyez,
Et moi je reste seule à voir tourner mon ombre.
A mes pieds !

Tu fuis, puis tu reviens, puis tu t'en va encore
Luire ailleurs.
Aussi me trouves tu toujours à chaque aurore,
toute en pleurs !

Oh! pour que notre amour coule des jours fidèle,
O mon roi,
Prends comme moi racine, ou donnes moi des ailes,
Comme à toi !

Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de fevereiro de 1802 — Paris, 22 de maio de 1885)










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2015-05-21

Consumo - Olga Savary

Onda há mar e toda a água havia
a insubmissa dona do meu dono
é mais que amor.

Trazes na língua o fulgor do dia
e anoiteço.

Desço até onde o amor te baste
e me farde
e amanheço.


Olga Savary (Belém, Pará, 21 de maio de 1933)

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