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2015-08-27

A LÁSTIMA - Alvarenga Peixoto

Na masmorra da Ilha das Cobras,
lembrando-se da família


Eu não lastimo o próximo perigo,
Nem a escura prisão estreita e forte;
Lastimo os caros filhos e a consorte,
A perda irreparável de um amigo.

A prisão não lastimo, outra vez digo,
Nem o ver iminente o duro corte;
É ventura também achar a morte
Quando a vida só serve de castigo.

Ah! quão depressa então acabar vira
Este sonho, este enredo, esta quimera,
Que passa por verdade e é mentira.

Se filhos e consorte não tivera,
E do amigo as virtudes possuíra,
Só de vida um momento não quisera.

Inácio José de Alvarenga Peixoto (Rio de Janeiro, 1 de fevereiro 1742/1744 — Ambaca, Angola, 27 de agosto 1792)

Do mesmo autor: Estela e Nize

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2015-08-26

Eu não quero - Joaquim Cardozo

Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence

in Poemas, 1947

Joaquim Maria Moreira Cardozo (n. no Recife, Pernambuco, a 26 de agosto de 1897; m. em Olinda a 4 de novembro de 1978)

Ler do mesmo autor neste blog:
Chuva de Caju
Poema do Amor Sem Exagero
Aquarela
A Várzea Tem Cajazeiras

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2015-08-25

Que Vos Daria? - Luís Delfino

Se tiverdes um dia um capricho, senhora,
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;

Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu d'outros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...

Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.

Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias d'ouro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.

LUÍS DELFINO dos Santos nasceu em Desterro, hoje Florianópolis (SC), a 25 de Agosto de 1834 e morreu no Rio a 31 de Janeiro de 1910.

Ler do mesmo autor neste blog: Cadáver de Virgem

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2015-08-24

Cosmogonia - Jorge Luís Borges



Nem treva nem caos. A treva
Requer olhos que veem, como o som.

E o silêncio requer o ouvido,
O espelho, a forma que o povoa.

Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer
Uma divindade que premedita

O silêncio anterior à primeira
Noite do tempo, que será infinita.

O grande rio de Heráclito o Escuro
Seu irrevogável curso não há empreendido,

Que do passado flui para o futuro,
Que do esquecimento flui para o esquecimento.

Algo que já padece. Algo que implora.
Depois a história universal. Agora.


(Tradução de Héctor Zanetti)

Jorge Luís Borges Acevedo (n. Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — m. Genebra, 14 de Junho de 1986)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Soneto do Vinho
Arte Poética
The Art of Poetry
Do que nada se sabe
Limites;
O Mar

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2015-08-20

Recordando - Matias de Lima


Relembro as lindas tardes de poesia
Passadas docemente à beira-mar;
Passadas na amorável companhia
Dos bons poveiros, corações sem par.

A minha vida triste, ao sol sem manchas,
Foi bela! O mar regia a sua orquestra.
Com os poveiros encostados às lanchas,
Eu me entretinha em fraternal palestra.

De quando em quando ouvia aos mais idosos
Narrações de trabalhos singulares:
Inclemências, naufrágios pavorosos
Que levavam o luto a tantos lares!

Quanta vez comparava a sua lida
Com a dos Poetas! Uns, do mar profundo
Extraindo alimento para a Vida...
Outros, da alma febril, luz para o Mundo!

Uns, engolfados nesse mar fatal;
Outros, por infortúnios perseguidos,
Nautas da Dor no pélago do Ideal!
Tanta vez soçobrados e vencidos!

***

É doce recordar, chorando e rindo,
Momentos de ventura, passageiros.
Ai, que saudades desse mar tão lindo!
Ai, que saudades desses bons poveiros!

Extraído daqui

Matias Lima (Porto, 20 de agosto de 1885 - Porto, 9 de março de 1970)

Do mesmo autor: Tarde de Agosto

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